Revista Trías

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Entrevista: Otto Winck

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A partir desta edição, a Revista Trías (ISSN 2179-0604), apresentará uma série de entrevistas com escritores brasileiros. A primeira, é com o escritor carioca Otto Winck, radicado no Paraná, que vem despontando como um dos nomes da nova safra literária.

por Gisele do Rocio Borges

Otto WinckNo recente cenário da literatura paranaense, alguns autores vêm conquistando espaço e demarcando seu estilo. Dentre esses, o escritor Otto Leopoldo Winck, que integra essa geração.

Otto nasceu no Rio de Janeiro, capital. Passou a infância e parte da adolescência em Porto Alegre. Desde os anos 80 está radicado em Curitiba, onde concluiu o mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPr) e ministra oficinas de criação literária pela Fundação Cultural de Curitiba. É o ganhador do Prêmio da Academia de Letras da Bahia/Braskem de Romance 2005, com o livro “Jaboc”, publicado em 2007 pela editora Garamond.

“Jaboc”, romance premiado do autor, narra a saga de um professor universitário assolado por uma ideia: Escrever um livro. Apropriando-se de metáforas e analogias (a começar pelo título, que faz alusão a uma passagem bíblica, explicada ao final) o texto aborda de modo fluído e contundente a crise existencial do narrador em busca de respostas das quais resultam novas perguntas.

O cenário de “Jaboc” não se faz estranho a quem tenha conhecido a Curitiba dos anos 1990, sobretudo os espaços marginais, frequentados por intelectuais e artistas da época. E, sob um enfoque subjetivo e existencial, transcorre a narrativa, que instiga seu interlocutor a questionar e a adentrar espaços inusitados. Tem-se, enfim, uma metaficção a ser desvendada e saboreada pelo leitor.

 

Revista Trías - Como foi o processo de criação do Jaboc?
O Jaboc, ainda sem este título, começou como um conto. Tinha umas 15 páginas. Mas assim não era exatamente especular: um conto de um cara que está escrevendo um romance. Para produzir o efeito de espelho tinha que ser um romance de alguém que está escrevendo um romance. Então eu peguei o conto, acrescentei mais dados à trama, coloquei novos personagens... Enfim, reescrevi umas cinco vezes, ao longo de três anos – e tudo à mão. Na época eu não tinha computador e nem sabia digitar. Aliás, digitar eu não sei até hoje. Uso só dois dedos, e às vezes ainda gasto preciosos segundos para achar o W ou os dois pontos. Aí, na última versão, eu paguei alguém para digitar o livro. E depois de digitado, ainda fiz algumas alterações. Bom, aí eu já tinha computador.

RT - Como foi ganhar o Prêmio de Literatura da Academia de Letras da Bahia?
Depois de pronto fiquei sabendo desse concurso e resolvi enviar. Um belo dia, em janeiro de 2004, meu filho me avisa que tem um telefonema de Salvador pra mim. Eu pensei: ganhei. Ninguém se daria ao trabalho de fazer um interurbano para avisar que o sujeito não ganhou. Atendi. O senhor é Otto Leopoldo Winck? Sim, eu mesmo. Pois bem, a comissão julgadora acabou de sair da sala e o senhor é o ganhador do prêmio – foram me falando. Depois de agradecer gentilmente e pousar o fone no gancho – como se dizia antigamente – dei um grito tão alto que o meu filho se assustou. Claro, é sempre bom ganhar um dinheiro por algo que você gosta de fazer e não costuma ser muito valorizado. Depois teve ainda a edição do livro proporcionada pelo prêmio. E a boca-livre em Salvador. (risos)

RT - Além de metaficção, o Jaboc é autoficção?
Mais meta que auto. Mas claro que o protagonista tem muito de mim. Sempre se escreve a partir de si. Felizmente eu consegui terminar o livro, enquanto ele não. E acho que ele passou mais maus pedaços que eu. Tenho pena dele, coitado.

RT - Como metaficção, “Jaboc” está recheado de reflexões sobre a literatura e a arte. O que você acha da atual voga de metaficção?
Quando você está em crise, você pensa muito em você, não é? Aí você vai fazer análise, pisicoterapia, o escambau. A arte a literatura atravessaram por muitas crises no século XX. Aí é natural essa visada metalinguística. Mas veja bem, a literatura nunca pode abandonar a ficção, a fabulação, a imaginação. Ela bebe do ensaio, vai colher inspiração na filosofia, nas ciências, nas outras artes. Mas romance é romance, é contar uma história, um causo. E por mais que o Jaboc tenha esse aspecto metaficcional, ele conta uma história. Por trás do protagonista que quer escrever um livro tem uma história, a história dele, de seus desencontros, suas frustrações, seus sonhos... Por outro lado Jaboc é até uma crítica deste excesso de literatura. Entre as suas inúmeras epígrafes, tem epígrafes repetidas e até uma epígrafe falsa, de um autor que não existe.

RT - Qual é?
Ah, isso você vai ter que procurar. Mas não é difícil. Com o mestre Google fica mais fácil.

RT - E você está escrevendo algo agora?
Tenho um romance pronto e estou terminando uma novela para a qual ganhei uma bolsa da Funarte. O tempo se tornou mais rápido com a internet. Mas tem coisas que continuam lentas como uma carroça: escrever um livro, publicar...

RT - E como você vê a cena literária de Curitiba?
Olha, tem muita coisa boa. Muita gente escrevendo, produzindo, alguns publicando. Não vou citar nomes porque sempre posso esquecer alguns. Mas daria para enumerar pelo menos umas duas dúzias de prosadores e poetas que estão produzindo algo interessante. O que nos falta são editoras. E visibilidade. Curitiba, o Paraná, ainda é uma grande província, espécie de subúrbio de São Paulo.

RT - E fazendo para você uma pergunta que é constante no Jaboc: a literatura pode dar sentido à vida?
Não sei. Talvez sentido como direção, um lugar para ir, para se esconder, para tentar conter o tempo – embora isto seja sempre em vão. Daqui a um milhão de anos não só nossas vozes mas também nossos livros estarão calados. O Jaboc, enfim, não apresenta respostas. Ou, melhor, oferece tantas respostas que você pode escolher a sua. Veja só: temos o protagonista inominado que prefere abrir mão da vida em função da literatura. E temos o Clóvis, seu principal interlocutor, que entre vida e literatura não hesita em escolher a vida. É este quem acaba concluindo e publicando um livro. Qual foi a melhor escolha? Não há dúvida que mesmo depois de tanta teoria ainda não sabemos o que seja literatura. E com toda literatura não sabemos o que seja vida. Viver para escrever? Escrever para viver? O silêncio não é às vezes mais eloquente? Não sei, não sei. Por isso escrevo.

 


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